segunda-feira, 12 de julho de 2010

A sensualidade da língua

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação:os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-à-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


[ Fonte: Cabeça de homem - Menos complicada do que você imagina ]

sábado, 10 de julho de 2010

Despedida

Existem duas dores de amor:
A primeira é quando a relação termina e a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do outro, com a sensação de perda, de rejeição e com a falta de perspectiva,já que ainda estamos tão embrulhados na dor que não conseguimos ver luz no fim do túnel.

A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.

A mais dilacerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desimportante para o ser amado.
Mas, quando esta dor passa, começamos um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem sentimento especial por aquela pessoa. Dói também…

Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém.
É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de uma época bonita que foi vivida…
Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar.

É uma dor mais amena, quase imperceptível.
Talvez, por isso, costuma durar mais do que a ‘dor-de-cotovelo’ propriamente dita. É uma dor que nos confunde.
Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: “Eu amo, logo existo”.

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente…
E só então a gente poderá amar, de novo...


[Martha Medeiros]

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Medo

Com medo de parecer tolo,
deixamos de ser natural.

Com medo de parecer sentimental,
deixamos de nos emocionar.

Com medo de se envolver,
deixamos de amar.

Com medo de sofrer,
nos fechamos em casulo.

Com medo do ridículo,
esquecemos a espontaneidade.

Com medo de arriscar,
não conquistamos nada.

Com medo de ser alguém,
rapidamente nos escondemos do mundo.

Com medo de viver,
escolhemos morrer.

Com medo de perder,
preferimos o abandono.

Com tantos medos...

Não sentimos, não crescemos, não somos,

Não amamos, não temos, não amamos, não vivemos...

[Autor desconhecido]

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ela...Ele...

Ela sofria, ele nem ligava.
Ela chorava, ele ria.
Ela falava, ele não ouvia.
Ele mentia, ela acreditava.
Ela o esperava, ele não voltava.
Ela queria coisa séria, ele só queria se divertir.
Ela sorria pra ele, ele ria dela.
Ela acreditava em tudo que ele dizia, ele dizia o mesmo para as outras.
Ela queria pra sempre, ele só por um momento.
Ela se entregava, ele evitava.
Ela falava: eu te amo, ele apenas sorria.
Ela ficava por conteúdo, ele ficava por quantidade.
Ela procurava o príncipe, ele procurava a próxima.
Ela queria-o, ele queria uma.
Ele descobriu que ela era a única, ela descobriu que ele era só mais um.

[Autor desconhecido]

terça-feira, 6 de julho de 2010

Você realmente já amou uma mulher?


Para realmente amar uma mulher, para entedê-la
Você deve conhecê-la por dentro, ouvir cada pensamento
Ver cada sonho, e dar-lhe asas quando ela quiser voar
E quando se vir impotente nos braços dela, você saberá
Que realmente ama uma mulher.

Quando você ama uma mulher diz a ela o quanto é desejada
Quando você ama uma mulher diz a ela que ela é única 
Porque ela precisa de alguém pra dizer-lhe que vai durar pra sempre 
Então me diga você realmente, de verdade, já amou uma mulher?

Para realmente amar uma mulher deixe que ela te abrace
Até você saber como ela precisa ser tocada
Você tem de respirá-la, tem de sentir seu gosto,
Até senti-la em seu sangue 
E quando vir seus futuros filhos nos olhos dela, você
Saberá que realmente ama uma mulher

Quando você ama uma mulher diz a ela o quanto é desejada
Quando você ama uma mulher diz a ela que ela é única 
Porque ela precisa de alguém pra dizer-lhe que vai durar pra sempre 
Então me diga você realmente, de verdade, já amou uma mulher?

Dê a ela confiança, abrace-a apertado, dê um pouco de ternura,
Trate-a direito e ela estará lá cuidando bem de você,
É preciso amar sua mulher.
Apenas diga-me, você realmente de verdade, já amou uma mulher??? 

[ Tradução da música: Have You Ever Really Loved A Woman? de Bryan Adams]

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Tempo de...

"Tempo de nascer
Tempo de morrer
Tempo de plantar
Tempo de arrancar a planta
Tempo de matar
Tempo de curar
Tempo de destruir
Tempo de construir
Tempo de chorar
Tempo de rir
Tempo de gemer
Tempo de bailar
Tempo de atirar pedras
Tempo de recolher pedras
Tempo de abraçar
Tempo de separar
Tempo de buscar
Tempo de perder
Tempo de guardar
Tempo de jogar fora
Tempo de rasgar
Tempo de costurar
Tempo de calar
Tempo de falar
Tempo de amar
Tempo de odiar
Tempo de guerra
Tempo de paz."

[ Trecho do livro "Onze Minutos" de Paulo Coelho ]

domingo, 4 de julho de 2010

O pássaro

"Era uma vez um pássaro.
Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas.
Enfim, um animal feito para voar livre e solto do céu, alegrar quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu este pássaro e se apaixonou por ele.
Ficou olhando o seu vôo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rápido, os olhos brilhando de emoção.
Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia.
Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.
Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes!
E a mulher sentiu medo.
Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro.
E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.
E sentiu-se sozinha.
E pensou: 'Vou montar uma armadilha. A próxima vez que o pássaro surgir, ele não mais partirá.'
O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.
Todos os dias ela olhava o pássaro.
Ali estava o objeto de sua paixão, e ela mostrava para suas amigas, que comentavam: 'Mas você é uma pessoa que tem tudo.'
Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro, e já não precisava conquistá-lo, foi perdendo o interesse.
O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido de sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio, e a mulher já não prestava mais atenção nele, apenas na maneira como o alimentava e como cuidava de sua gaiola.
Um belo dia, o pássaro morreu.
Ela ficou profundamente triste, e vivia pensando nele.
Mas não se lembrava da gaiola, recordava apestas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.
Se ela observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.
Sem o pássaro, sua vida também perdeu o sentido, e a morte veio bater à sua porta.
'Por que você veio?' perguntou à morte.
'Para que você possa voar de novo com ele nos céus.' respondeu a morte.
'Se o tivesse deixado partir e voltar sempre, você o amaria e o admiraria ainda mais, entretanto, agora você precisa de mim para poder encontrá-lo de novo."

[ Trecho do livro "Onze Minutos" de Paulo Coelho ]

sábado, 3 de julho de 2010

Segundo Platão...

"Segundo Platão, no início da criação, os homens e mulheres não eram como são hoje; havia apenas um ser, que era baixo, com um corpo e um pescoço, mas sua cabeça tinha duas faces, cada uma olhando para uma direção.
Era como se duas criaturas estivessem grudadas pelas costas, com dois sexos opostos, quatro pernas, quatro braços.
Os deuses gregos, porém, eram ciumentos, e viram que uma criatura que tinha quatro braços trabalhava mais, duas faces opostas esta vam sempre vigilantes e não podia ser atacada por traição, quatro pernas não exigiam tanto esforço para ficar de pé ou andar por longos períodos.
E, o que era mais perigoso: tal criatura tinha dois sexos diferentes, não precisava de ninguém mais para continuar se reproduzindo na terra.
Então disse Zeus, o supremo senhor do Olimpo: 'Tenho um plano para fazer com que estes mortais percam sua força.'
E, com um raio, cortou a criatura em dois, criando o homem e a mulher.
Isso aumentou muito a população do mundo, e ao mesmo tempo desorientou e enfraqueceu os que nele habitavam, porque agora tinham que buscar de novo sua parte perdida, abraçá-la de novo, e nesse abraço recuperar a força antiga, a capacidade de evitar a traição, a resistência para andar longos períodos e aguentar o trabalho cansativo. O abraço em que os dois corpos se confundem de novo em um, nós o chamamos de sexo."

[ Trecho do livro "Onze Minutos" de Paulo Coelho ]